Na opinião do doutor Hans Wolfgang Halbe, livre-docente de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), e de sua mulher, Aparecida Halbe, psicóloga clínica da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, envelhecer com saúde é possível, desde que se cuide da mente e do corpo. “Depressão e estresse crônico são fatores de risco para o sistema cardiovascular e para o sistema nervoso”, garantem ambos. Salientam também a importância da ingestão de soja na prevenção de doenças e na diminuição do risco de enfermidades crônico-degenerativas.
Envelhecer com saúde talvez seja a maior vontade de homens e mulheres. Vocês acreditam que haja alguma receita para isso?
A receita para viver conservando a saúde é cuidar dela quando comprometida. É necessário adotar um estilo de vida compatível com este objetivo maior, que pode ser resumido na seguinte frase: “A mente e o corpo devem ser cuidados”. A depressão e o estresse crônico são poderosos agentes lesivos para os sistemas orgânicos: são fatores de risco para o sistema cardiovascular e para o sistema nervoso. O cuidado com o corpo consiste na alimentação equilibrada e no condicionamento físico. Não fumar (e não beber) em excesso e ter uma vida sexual satisfatória (complementando um relacionamento emocionalmente saudável) também são essenciais.
Dieta saudável e condicionamento físico ajudam a evitar problemas na maturidade?
A dieta e os cuidados físicos são parte da solução. É como acertar na loteria: ajuda, mas não resolve. Nada substitui o crescimento e o desenvolvimento da pessoa como um todo. É o significado da expressão “desenvolvimento holístico”.
A ingestão do gérmen da soja ajuda a ter menos problemas físicos na maturidade?
Sim, ajuda. Quanto mais cedo se iniciar a ingestão, melhor. A soja é um nutracêutico, isto é, um alimento que nutre e promove a saúde, prevenindo doenças. Como toda intervenção preventiva implica um longo prazo, é preciso adotar um novo estilo de vida. E quanto mais cedo começa a mudança, mais precoce será o benefício. Os asiáticos são citados como exemplo de estilo de vida baseado na soja. Esse fato traz vantagens no sentido de diminuir o risco de doenças crônico-degenerativas nas populações que utilizam o nutracêutico. As propriedades nutracêuticas da soja giram ao redor da reprodução, porque se baseia no emprego de grãos. Os grãos são ricos em fatores de crescimento e hormônios estrógeno-símiles, os fitoestrógenos. Os fatores de crescimento, as fitocitocinas e os fitoestrógenos exercem suas funções por meio de receptores distintos, possibilitando às células alcançar resultados altamente específicos. Os fitoestrógenos, representados pelas isoflavonas, atuam por meio dos receptores alfa (REa) e beta (REb). Os REa estimulam as funções celulares e os REb regulam essas funções. Estes últimos, em grau bem menor, também podem estimulá-las. Por exemplo, no endométrio e na mama, enquanto os estrógenos convencionais estimulam a proliferação e favorecem o desenvolvimento de neoplasia, os fitoestrógenos atenuam ou bloqueiam o estímulo proliferativo, diminuindo o risco de câncer. No intestino, todos os estrógenos estimulam mais os REb e bloqueiam ou atenuam os efeitos dos REa. Esse fato ficou claro no estudo WHI (Women’s Health Initiative), que confirmou a diminuição do risco de câncer colorretal quando há consumo de estrógenos.
Em que época ou idade é recomendado o tratamento de reposição hormonal às pacientes?
A nomenclatura TRH (tratamento de reposição hormonal) é retrógrada. A atual nomenclatura é tratamento hormonal da menopausa (THM).
O tratamento deve ser iniciado na época da menopausa ou antes. A razão é dupla: manter a qualidade de vida e impedir que as células sensíveis ao hipoestrogenismo sejam lesadas, tornando-se inacessíveis aos efeitos protetores dos estrógenos e fitoestrógenos. O THM deve ser mantido por 10 anos.
Os estudos indicam que não é possível submeter-se ao THM convencional sem passar por riscos. Considerando este obstáculo, como vocês têm tratado suas pacientes?
A base do problema está na mudança de nomenclatura para THM. O TRH dava a idéia de que o médico apenas substituía o que faltava. A medicação era considerada amigável. O WHI desmistificou o TRH, salientando que nenhum tratamento é totalmente inócuo. Daí a ênfase nas baixas doses e no limite etário superior.
Sabemos que o professor Hans é um grande adepto da soja. Quais os benefícios que ela traz quando utilizada no THM?
As pacientes são tratadas de acordo com dois protocolos: a) gérmen de soja, 2 cápsulas no café da manhã e 1 cápsula no jantar, diariamente; b) extrato de soja, 1 colher de sopa cheia (10 a 15 gramas) no café da manhã e no jantar (total 20 a 30 gramas diários). A preferência pelo gérmen da soja deve-se ao fato de o gérmen conter fatores de crescimento na fração protéica e isoflavonas na fração glicídica. Há uma relação definida entre isoflavonas e fatores de crescimento. Quando se descreve que um produto tem 50 mg de isoflavonas, pode-se pressupor que também contém uma quantidade de fitocitocinas correspondente. Particularmente, não se deve endossar o uso de fitoestrógenos isolados ou de produtos enriquecidos com isoflavonas. O uso de isoflavonas isoladas é um terreno desconhecido, acreditando-se que possam estimular o endométrio e da mesma forma que os estrógenos convencionais. O bônus do gérmen de soja é a presença de fitocitocinas proporcional à quantidade de isoflavonas. Assim, não se deve temer eventos adversos decorrentes dos fitoestrógenos presentes no gérmen de soja, pois as propriedades nutracêuticas resultam de efeito conjunto e equilibrado. Em relação aos benefícios, observa-se, em longo prazo, o desaparecimento das ondas de calor, maior trofismo da pele e fâneros, das vias geniturinárias e bloqueio da perda ou mesmo ganho da massa óssea. Acredita se que, em longo prazo, também possa haver efeito favorável no sistema nervoso e no sistema cardiovascular.
Como andam as pesquisas do professor associadas à soja?
Estas pesquisas começaram há três anos e meio. O que se pode dizer é que a aquiescência é maior com o gérmen do que com o extrato de soja. Quanto aos resultados preliminares (há aproximadamente de 400 a 600 pacientes em tratamento), as ondas de calor diminuem ao longo do tempo e não voltam se houver continuidade do tratamento. O resultado não é tão espetacular como com o estrógeno convencional. Mas, em compensação, não há contra-indicações significativas, nem temor das pacientes em relação ao câncer da mama. A perda óssea parece ser bloqueada e, até mesmo, ocorre ganho em muitas pacientes. Há maior trofismo da pele e fâneros e também das vias geniturinárias em muitas pacientes.